Regulamentos das Touradas à corda
A Festa Brava
Ilha Terceira - Açores
NOTA HISTÓRICA

Enraizado no tempo, o uso da corrida de touros à corda nos Açores (em particular na
ilha Terceira), constitui a mais antiga tradição de folguedo popular no arquipélago.
Remonta a 1622 a primeira citação que se conhece da realização de uma tourada à
corda, sendo de presumir que o uso dos touros no folguedo popular ocorresse muito
antes daquela data, só assim se justificando que fosse a Câmara de Angra a entidade
organizadora dos eventos de 1622, enquadrados nos jubilosos festejos que
celebravam a canonização de São Francisco Xavier e Santo Inácio de Loiola.
A tourada à corda foi, através dos tempos, moldada por normas e regras de cariz
rigorosamente popular, de que sobressaem os sinais correspondentes aos limites do
espectáculo (riscos no chão), à largada e recolha do touro (foguetes), à armação dos
palanques e à actuação dos capinhas (improvisados toureiros que, no decorrer dos
tempos, recorreram aos mais diversos instrumentos e movimentos para sua defesa e
execução de sortes, desde o bordão enconteirado, passando pelo guarda-sol, a
varinha, a samarra, o pano em forma de muleta, até ao cite a descoberto, rodopiando
para vencer o piton).
Todos estes ingredientes, servidos pelo ambiente típico das touradas,
transformaramna
num verdadeiro cartaz de interesse regional e atracção turística, tão importante
quanto as largadas, para os espanhóis, e os folguedos com o uso dos touros da
Camarga, para os franceses.
Dada a riqueza do costume, o seu interesse etnográfico e etnológico e o seu valor
como cartaz turístico da ilha Terceira e dos Açores, por forma a evitar adulterações
que o desvirtuassem e a garantir que se preservasse o rigor do traje e dos costumes
populares, criados em especial pelas escolas de pastores que existiram nos séculos
XVIII, XIX e princípios do século XX, particularmente na freguesia da Terra-Chã, ilha
Terceira, servindo as ganadarias daquele tempo, tornou-se imperiosa a criação de
regras escritas que, balizando a actuação dos diversos intervenientes, permitisse a
compatibilização, complexa mas indispensável, de dois objectivos: de um lado, a
preservação desses aspectos e práticas fortemente tradicionais ligados às touradas à
corda, profundamente enraizadas na cultura popular; de outro lado, a dinâmica desta
festa, que impõe a adequação de algumas das práticas e das regras fixadas às
exigências actuais, de que são exemplo os imprescindíveis avanços consagrados em
matéria de sanidade animal.


O BOVINO DE RAÇA BRAVA DA ILHA TERCEIRA

Durante muitos séculos existiu na Europa um bovino selvagem que foi o
precursor de muitas das raças de bovinos domésticos europeus,
denominado auroque.
A origem do auroque parece situar-se nas florestas com clareiras da Índia,
havendo posteriormente migrado para a Europa e Norte de África.
Este animal, com cerca de 260 a 310 cm de comprimento, altura de 180 cm
e peso de 800 a 1000 Kg (com as fêmeas a apresentarem dimensões gerais
inferiores em um quarto às dos machos), apresentava pelagem castanha
escura, com listra clara ao longo do dorso (sendo as fêmeas e crias de cor
mais clara).
A sua extinção acompanhou o percurso da sua migração, ou seja, deu-se
primeiro no Oriente e só depois no Ocidente, tendo aqui ocorrido no primeiro
quartel do século XVII.
Hoje são considerados como seus mais directos representantes os touros
bravos de Portugal, Espanha e Sul de França, o bovino da Córsega, o bovino
das montanhas escocesas e o bovino das estepes húngaras.
Considerando a data do descobrimento dos Açores, a que se seguiu a
introdução dos primeiros animais, designadamente bovinos, com o que se
preparou o subsequente povoamento das ilhas, é de crer que o touro bravo
da Ilha Terceira, bovino de menor compleição do que os seus congéneres de
Portugal continental e Espanha, corresponda, de muito perto, ao primitivo
auroque, do qual é digno descendente.
O touro bravo vive plenamente adaptado à paisagem vulcânica agreste do
interior da Ilha Terceira. A sua menor compleição dever-se-á a tal habitat
natural — o terreno vulcânico mais pedregoso e disponibilizando menores
recursos de alimentação, impróprio para a criação de gado bovino de outras
raças — . Durante séculos sujeito a intempéries, a fracos recursos
forrageiros e a uma menor intervenção humana, o touro da Ilha Terceira
sofreu essencialmente a acção evolutiva da natureza, ao contrário do
acontecido com os animais da península ibérica.
Surgiu assim um animal que, não servindo para as lides de praça, serve e dá
alma à tourada à corda. É, aliás, assumido pela população em geral que o
touro do continente não permite lides de rua com garra e tão vistosas como a
do touro miúdo com origem nos primeiros animais trazidos pelos povoadores
destas ilhas.
Por esse motivo, por ser uma variante da raça de bovino bravo que se pode
considerar autóctone dos Açores (e, em particular, da Ilha Terceira), existem
motivos de sobra para que o açoriano se orgulhe do seu touro bravo que,
pela sua natureza, corresponde ao bovino ideal para participar numa
manifestação de cariz tão popular como é a tourada à corda. Esta última,
demais a mais, no estabelecimento da sua organização e respectiva
evolução, teve que considerar a natureza do seu interveniente mor — o touro
—.

O Regulamento das Touradas à Corda na Região Autónoma dos Açores, nas
suas diversas versões ao longo dos últimos dez anos, mais não é do que a
extensão legal do princípio expresso no parágrafo anterior. Se a festa evoluiu
considerando a permanente disponibilização de novos recursos ao serviço

de quem habita estas ilhas, o regulamento acompanhou essa evolução, bem
como as novas sensibilidades de uma sociedade que, como a nossa, é parte
integrante da Europa por via administrativa, económica, política, social e
cultural.
Exemplo da evolução da festa, por via dessa disponibilização de novos
recursos, foi o início do transporte dos touros para o local da festa em
gaiolas instaladas num camião, em oposição ao encaminhamento pedestre
do touro, pastores e seus cães, desde o pasto até ao terreiro da freguesia,
palco da festa, como era uso ainda na primeira metade do século XX.
Exemplos do acompanhamento normativo da dinâmica de alteração da
tradição da tourada à corda, podem ainda encontrar-se nos critérios cada
vez mais rigorosos de protecção ao touro na sua dignidade como animal
nobre e no cumprimento dos nossos deveres, bem como as obrigações de
bem-estar animal impostas pela União Europeia. Sem esquecer que tais
desígnios tiveram inicialmente origem em reclamações dos próprios
aficcionados. Daí a obrigação da observância de oito dias de descanso,
durante os quais o animal não deve ser corrido; a obrigação de a ganadaria
possuir um médico veterinário assistente que vigie a sanidade, o bem estar e
comprove a capacidade de lide dos touros; a obrigação de o ganadeiro
cuidar para que os touros não sejam enjaulados mais do que duas horas
antes do início da festa; a obrigação de providenciar por local o mais
sombreado possível na colocação das gaiolas no local da festa; a interdição
ao público em geral de importunar os animais enquanto enjaulados; a
interdição de serem corridos touros estropiados; a obrigação de transportar
de imediato os touros de volta à pastagem mal ocorra o termo da tourada; a
obrigação de os promotores das festas providenciarem por vedações e
abrigos que não causem ferimentos nem ao público, nem aos animais; e,
entre outros deveres, a obrigação do licenciamento e fiscalização oficiais das
touradas à corda.
O acima mencionado, por si só, justifica plenamente a existência do
Regulamento das Touradas à Corda, embora este verse outros aspectos que
igualmente fazem parte da festa, no intuito de preservar o que é
verdadeiramente de tradição.
Pode, pois, considerar-se existir uma obrigação moral por parte da
população açoriana, com relevo para os terceirenses, graciosenses e
jorgenses, de conhecimento das regras que orientam o decurso de uma
tourada, pois é a nós que compete defender esta manifestação popular tão
genuína e rara, mais valia como nossa identificação perante uma Europa, e
porque não afirmá-lo, perante um mundo em que todos os povos cada vez
mais afirmam a sua identidade por referência a especificidades culturais no
contexto das respectivas civilizações.


O GANADEIRO NA TOURADA À CORDA

A Associação Regional de Criadores da Tourada à Corda é uma associação sem fins
lucrativos, com duração ilimitada; foi constituída em Junho de 2000 e tem sede em
Angra do Heroísmo.

São seus fins estatutários:

a) Promover a selecção das ganadarias de toiros de touradas à corda, com vista ao
seu melhoramento;

b) Estudar e adoptar as medidas apropriadas aos problemas relacionados com a
produção e comercialização dos touros à corda;

c) Prestar aos criadores de touros uma eficiente colaboração, quer sobre o aspecto
técnico e consultivo, quer na defesa dos seus direitos e interesses;

d) Prestar a colaboração a todos os organismos oficiais em relação às questões que
afectem as ganadarias de touros de touradas à corda;

e) Participar na redacção e cumprimento dos regulamentos que digam respeito a
assuntos relacionados com touradas à corda.

De acordo com os dados fornecidos pela associação, indicam-se de seguida os
elementos identificativos e o historial das ganadarias.
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